Quem sou eu

Distante da inveja, a ambição é uma busca desenfreada que prescisa de medidas calculadas. A fome e o desejo do saber, a curiosidade do novo e do instigante, agigantam a ambição intelectual. O saber mais, não do que os outros, mas de si mesmo, remete a uma auto-reavaliação de conceitos. Procurar respostas para perguntas que só nós mesmos temos não é um ato fácil. São difíceis resoluções, falsas ou verossímeis até a certeza de que achamos algo.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013


O homem com cabeça de leão

            Não me lembro bem, tinha 10 ou 11 anos quando tive esse sonho. No sonho, eu estava jogando bola em uma praça perto da minha casa. Até que um colega deu um chute muito forte. A força foi tanta que a bola foi parar no jardim de uma casa.
            Então me escolheram para ir lá tentar recuperar a bola. Bati palmas e me apareceu um homem com cabeça de leão, segurando um daqueles aquários redondos.
            A criatura perguntou-me o que queria. Paralisado, disse que queria a bola. A resposta do homem leão foi peculiar: “está aqui a sua bola, da próxima vez que ela cair em meu jardim, como a cabeça de quem vir me perturbar”.
            Engoli seco. A única coisa que conseguia pensar era que sempre me escolhiam para pegar a bola em qualquer casa que ela caía.
            Voltei para a praça e eu e meus amigos recomeçamos a jogar. Não demorou muito e outro garoto jogou a bola longe, fazendo-a cair no jardim da casa do homem leão.
            Acordei.                                                                  




João Manoel da Silva Queiróz
08.12.2010

sábado, 12 de maio de 2012


Tráfego

É muita luz,
muito medo,
muita incerteza,
muito perigo.

Tudo na mesma correnteza,
na mesma maré,
na mesma onda,
na mesma propagação.

Levando-me para a paz,
para o paraíso,
para a redenção,
para o sucumbir.

-- 05 2012

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Joelhos sujos, certeza de castigo

   
     ― Olha menino, se as cinco horas você chegar em casa com os joelhos da calça sujos, fica uma hora de castigo!
Essa era a resposta da minha vó, quando ia pra escola, pedia a benção e dava tchau. Eu já sabia que se chegasse em casa sujo iria ficar de castigo, de joelhos, mas também já sabia que iria ficar de castigo, pois não me aguentava. Sabia que o castigo não era por maldade, mas sim, servia como ensinamento. Nunca aprendia.
     Lá no colégio, eu e meus amigos brincávamos de escorrega. A única regra era, derrubar o outro como se estivesse escorregando em água com sabão. O local era o pátio de entrada do colégio, uma estátua de uma santa, muito bonita por sinal, enfeitava o lugar, piso vermelho, lustradíssimo, víamos os nossos reflexos nele. Todos os dias, às três horas da tarde, estávamos lá, em fila, com os nossos sapatos com o solados lisinhos. Divertíamos muito. Ganhava quem derrubasse mais os outros. Ganhei algumas vezes. O vencedor era o assunto durante a aula.
     Quando retornava para casa, minha vó, estava na calçada, me esperando, olhava logo para a minha calça:
     ― Vamos menino, troque a roupa e fique uma hora de castigo!
    ― Mais Mãedite! - era como eu me dirigia à vó ― eu sujei porque estava brincando como os meninos...
     ― Não quero saber. Uma hora, e se falar mais um pio, ganha mais trinta minutos.
     Era sagrado, todos os dias. Já estava acostumado. Levava até uma revista da Turma da Mônica para passar o tempo:
     ― Posso me levantar para pegar outra revista? Quero a do Cascão!
     ― Não! Eu pego, fique aí onde está.
     E lá vinha ela me trazendo uma da Magali. Tinha tanta certeza do castigo que já me preparava psicologicamente.
     Preferia começar ficar de joelhos, quando o ponteiro grande do relógio estava no seis, a hora passava mais rápido. Trinta mais trinta.
     Sempre que faltavam quinze minutos para o fim, a Mãedite começava uma ladainha:
     ― Meu filho não faça mais isso, sujando a sua roupa. Sai de casa tão limpinho e chega parecendo um porco. Neto meu não anda sujo. Ainda por cima tenho que lavar sua calça todo dia, gasta água. Saia, saia do castigos e venha merendar.
     Fazíamos as pazes. No outro dia, estávamos de novo na mesma situação, eu de joelhos e ela pronunciando sua ladainha. De segunda à sexta.




25.outubro.2010

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Número 1

As vezes as coisas devem começar pelo final. Nada de rodeios, a objetividade, as vezes, é mais necessária do que o flerte e a subjetividade. A vida alia-se a imprevisibilidade, deixando o tempo a ver navios, chorando pelo leite derramado. Ela, a vida é superior, te deixa estático aos acontecimentos.


15.setembro.2010

Número 2

É pequenina demais, parece uma boneca de porcelana, branca e linda. Usa roupas coloridas que alegram os meus dias cinzentos. A cada micro-século que passamos juntos, me encanto mais e mais. Não sei se devo, mas me encanto mais e mais. Já tem muito dos meus sonhos realizados: Portugal, Alemanha, Áustria, Itália, Turquia. Meu Deus o que é isso? Tem explicação? Tão pequenina e gigante ao mesmo tempo. Apesar de falar grego, me ensina alemão aos poucos. Fico abismado, como já disse em outro papal, a vida me deixou estático à esse acontecimento repentino. Como uma pequenina assim, consegui guardar o presente, para ser admirado no futuro? Lindo. Linda. Singela. Uma flor. Frágil aventureira. Meu Deus é possível, do nada nascer a esperança? Sim ou não não importam, é só fazer como ela, guardar o presente.



 




17.setembro.2010

Número 3

Tenho medo de apostar e perder o que já tenho. Tenho medo do tempo passar e não fazer nada e depois chorar de decepção própria. Estou num beco sem saída. Entre a cruz e a espada.








22.setembro.2010


Número 4

Ah flor, estou me segurando pra não te falar meus sentimentos. Estou sofrendo por te ver todos os dias e não poder te abraçar e te beijar. Mas o medo de que nos afastemos me prende. Já nem sei o que fazer. Como é poderoso o Colpo de Fulmine. Me deixou estático aos acontecimentos. Flor, me seguro. De verdade. Sei que não tenho chance alguma, mas quero tentar. Tenho medo da sua reação. Quero muito tentar, mas não sei como flor.







22.setembro.2010