― Olha menino, se as cinco horas você chegar em casa com os joelhos da calça sujos, fica uma hora de castigo!
Essa era a resposta da minha vó, quando ia pra escola, pedia a benção e dava tchau. Eu já sabia que se chegasse em casa sujo iria ficar de castigo, de joelhos, mas também já sabia que iria ficar de castigo, pois não me aguentava. Sabia que o castigo não era por maldade, mas sim, servia como ensinamento. Nunca aprendia.
Lá no colégio, eu e meus amigos brincávamos de escorrega. A única regra era, derrubar o outro como se estivesse escorregando em água com sabão. O local era o pátio de entrada do colégio, uma estátua de uma santa, muito bonita por sinal, enfeitava o lugar, piso vermelho, lustradíssimo, víamos os nossos reflexos nele. Todos os dias, às três horas da tarde, estávamos lá, em fila, com os nossos sapatos com o solados lisinhos. Divertíamos muito. Ganhava quem derrubasse mais os outros. Ganhei algumas vezes. O vencedor era o assunto durante a aula.
Quando retornava para casa, minha vó, estava na calçada, me esperando, olhava logo para a minha calça:
― Vamos menino, troque a roupa e fique uma hora de castigo!
― Mais Mãedite! - era como eu me dirigia à vó ― eu sujei porque estava brincando como os meninos...
― Não quero saber. Uma hora, e se falar mais um pio, ganha mais trinta minutos.
Era sagrado, todos os dias. Já estava acostumado. Levava até uma revista da Turma da Mônica para passar o tempo:
― Posso me levantar para pegar outra revista? Quero a do Cascão!
― Não! Eu pego, fique aí onde está.
E lá vinha ela me trazendo uma da Magali. Tinha tanta certeza do castigo que já me preparava psicologicamente.
Preferia começar ficar de joelhos, quando o ponteiro grande do relógio estava no seis, a hora passava mais rápido. Trinta mais trinta.
Sempre que faltavam quinze minutos para o fim, a Mãedite começava uma ladainha:
― Meu filho não faça mais isso, sujando a sua roupa. Sai de casa tão limpinho e chega parecendo um porco. Neto meu não anda sujo. Ainda por cima tenho que lavar sua calça todo dia, gasta água. Saia, saia do castigos e venha merendar.
Fazíamos as pazes. No outro dia, estávamos de novo na mesma situação, eu de joelhos e ela pronunciando sua ladainha. De segunda à sexta.
25.outubro.2010




